
No livro "Sicilian Love", de Polugaevsky com Piket e Guéneau, há uma entrevista interessantíssima com o nobre jogador, na qual ele fala sobre sua vida, seu contato com xadrez, suas experiências. Um trecho impressiona: perguntado sobre como se tornou um jogador profissional, ele acaba revelando como se tornou autor de livros - por sinal, ótimos livros! Em um encontro com Botvinnik em Belgrado, 1969, Polugaevsky é questionado se "está atualmente escrevendo um livro de xadrez". Respondendo negativamente, o primeiro não hesita em dizer:
"Why don't you accept that you are lazy? You should be ashmed of yourself. It is the responsibility of all grandmasters to write books." ( Por que você não aceita que você é um preguiçoso? Você deveria estar envergonhado de você mesmo. É responsabilidade de todo grande mestre escrever livros.) - Olha só, chamado de preguiçoso, na cara dura!
O importante é que a "intimada" rendeu frutos. Agora me diz: quem intimará nossos grandes mestres??? Eu é que não serei, afinal, ser grande mestre no Brasil é um desafio e tanto! Não só para alcançar o título não, mas principalmente para que ele realmente represente algo em âmbito internacional. E nós temos somente seis deles!
Alguns grandes mestres brasileiros escreveram livros de xadrez. É o caso de Darcy Lima, com os livros "Xadrez, Aprenda a Jogar", "O ABC das Aberturas", "Estratégia" e "Combinação". Os dois últimos contam com a co-autoria de Júlio Lapertosa. Nunca vi nenhum.
Gilberto Milos fez sua parte, escreveu "Xeque e Mate", em parceria com Davy D'Israel.
Giovani Vescovi traduziu o excelente e egocêntrico "Meus Grandes Predecessores".
Henrique Mecking escreveu "Como Jesus Salvou Minha Vida"- sem comentários.
Não gosto de pensar que esta localização em obras para os iniciantes do xadrez ou os que desejam aprender o jogo seja uma atitude, digamos, reflexiva da política "xadrez em massa" dos projetos escolares. Porque se for, digo que é uma pena. Com a qualidade destes jogadores, esperamos obras profundas, de qualidade, que circulem todo o mundo enxadrístico e não se concentrem apenas em escolas com projeto de xadrez. Não desmereço a atitude, é importante que haja bons livros de iniciação para que se aprenda correto. Mas é só isso?
Socializar o conhecimento é importante para que novos talentos surjam. Publicar é um ato de coragem, ainda mais no Brasil e sobre xadrez! Porém, até quando ficaremos à margem do grande circuito mundial de xadrez? As publicações são importantes para divulgar o xadrez brasileiro. Muitos têm feito sua parte, como Paulo Giusti e Gérson Batista e Joel Borges. Temos muitos mestres traduzindo. Mas por que não escrever?
Isso não é uma intimada, juro pelos Deuses! É só um desejo, uma curiosidade, e um pedido leve: grandes mestres, aprendam como Polugaevsky aprendeu! Escrevam!!!