"Assim como o amor e a música, o xadrez tem o poder de tornar os homens felizes." (Tarrash)

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

O ponto de vista

Nem todas as pessoas, quando decidem agir de alguma forma, pensam previamente todos os detalhes de sua ação. Muitas coisas vão tomando forma e sendo esclarecidas no decorrer dela. Não sei ao certo o porquê disso, mas observando pude perceber essa caracteríticas das pessoas. A consciência existe, isso é fato, mas ela não está presente o tempo todo.
E por falar em tempo, ele é fundamental para que a observação torne-se clara. Porém, não falo de um tempo quantitativo, mas sim qualitativo, com propriedades muito especiais. É o tempo vivido, que alguns chamam de experiência. Por exemplo, no jogo de xadrez são as partidas, e não necessariamente o tempo (horas, minutos e segundos) que levamos para jogá-la. A expriência - o tempo - nasce de uma relação diferenciada que estabelecemos com aquele momento enquanto agimos, no caso, enquanto jogamos.
Já ouvi muitos dizerem, principalmente as crianças, que são muito sensatas, que quando fazemos o que gostamos o tempo passa rápido e que, ao contrário, demora um tantão quando estamos envolvidos em algo chato. Tenho que concordar. Mas... e no xadrez? Será que essa referência "bom-ruim" tão acertadamente percebida pelas crianças diz alguma coisa sobre a experiência e a velocidade do tempo?
Não sei quantas partidas já joguei desde que aprendi as regras, há onze anos atrás. Onze anos é uma referência temporal, mas se é para medir em termos de "bom-ruim", minhas experiências são então péssimas, pois tenho certeza que perdi mais do que ganhei e, engraçado, mesmo assim consegui boas colocações em campeonatos. E mais, não parei de jogar. Dá para explicar?
Eu acho que sim. Minha explicação se fundamenta no meu ponto de vista, o tabuleiro. Não penso mais em termos de partidas ganhadas ou perdidas, nem de tempo, para entender minha experiência no jogo, e sim penso no espaço - o tabuleiro - que faz com que o tempo se transforme e tenha outros significados.
Enquanto jogamos xadrez, mergulhamos em outra realidade, uma imaginada que por mais que encontremos paralelos com o nosso cotidiano pra lá de real, elas de fato vêm de nossa capacidade de imaginação. Assim como as regras, que ganham status de verdade no jogo. Assim, o tempo do jogo não é o mesmo das horas.
Assim, o espaço acaba dando sentido ao tempo, que no caso do xadrez não possibilita medições numéricas. Explico: se fosse para quantificar, teríamos que qualificar, e seria algo mais próximo das estações do ano do que dos 60 segundos de um minuto. As estações seriam abertura, meio jogo e final. E assim se repetem, como primavera, verão, outono, inverno, primavera, verão, outono, inverno... Afinal, alguém conhece quem jogou a última partida? Enquanto alguém jogar, ou seja, enquanto existir o jogo, essas estações se repetirão. No caso do jogo de xadrez, já fazem alguns bons milênios.
Meu ponto de partida é o tabuleiro. Meu tempo e minha experiência vêm dele. Por isso me considero jogadora e não jornalista como sugerem alguns. Me interessa mais o que vejo no meu tabuleiro e, mais que isso, quando levanto a cabeça e olho em minha volta. Esse é meu ponto de vista.

Um comentário:

PC disse...

Minha cara Taís,

Dessa vez sua veia filosófica foi quente! Escreveu com paixão ardente, ultrapassando a ideologia acomodada da percepção do tempo e do espaço! Sim, existem dois tempos em nossa vida, paralelos e ao mesmo tempo concorrentes, quanto ao aspecto de interno e externo, dentro e fora de nossos sentidos. O tempo absoluto que não existe, mas nos dá a sensação de infinito, e o tempo relativo que sente por dentro o que está de fora! ... O tempo biológico e o tempo cronológico das coisas que acontecem fora de nosso corpo e de nossa mente. O tempo que nos faz existir e ao mesmo tempo nos mata, a cada segundo, a cada minuto, todas as horas dos dias dos anos. Aquele tempo inalcançável pela existência fugaz de tudo que passou e só é percebido depois que se foi.

Abração,

PC